Entrevista - Joaquim RorizData de Publicação: 31 de julho de 2010
Tocando a campanha
Por: Walter Gomes e Antônio Fábio
Fotos de Hermínio Oliveira
“Aprendi como o povo pensa!”
Governador de Brasília por quatro vezes, uma delas por nomeação, o goiano (de Luziânia) Joaquim Roriz está em campanha para voltar a comandar o Palácio do Buriti pela quinta vez. No domingo passado, dia 25, ele recebeu, em sua mansão no Park Way, os representantes de Brasília Em Dia (Walter Gomes, Antônio Fábio e Hermínio Oliveira) para uma longa entrevista, inicialmente agendada para apenas uma hora, mas que se estendeu por até três horas. O que os entrevistadores viram foi um Roriz aberto, franco, disposto a responder a qualquer pergunta. De fato, ele surpreendeu a todos pela prontidão em falar de tudo. Antes lacônico e cauteloso, ele subitamente se mostrou outro no decorrer da entrevista, chegando a ponto de fazer confissões importantes. Uma delas, inédita até então, foi a revelação de como o seu destino se transformou a partir de uma notícia sobre Luiz Inácio Lula da Silva, que, por sua vez, também viu seu próprio futuro político redirecionado.
Depois de ser governador nomeado pelo então presidente José Sarney, Roriz integrou o governo de Fernando Collor como ministro da Agricultura. Certo dia, ele leu nos jornais que Lula estava transferindo seu domicílio eleitoral para Brasília, a fim de se candidatar ao GDF. Roriz levou a informação para Collor, que o autorizou a deixar o ministério para cuidar da sua campanha para governador, porque uma pesquisa encomendada por Roriz indicava que ele seria o único adversário capaz de derrotar Lula no DF. Lula, diante da possibilidade de entrar numa disputa para governador do DF concorrendo com Joaquim Roriz, acabou desistindo. Ou seja, se fosse candidato, seria derrotado, e sua renúncia abriu caminho para Joaquim Roriz conquistar nas urnas mais três passagens pelo Palácio do Buriti, deixando para o petista a opção de concorrer ao Palácio do Planalto, que ele enfim conquistou em 2002.
Ainda na entrevista, Roriz afirmou que o PT tem vocação cubana e venezuelana. Disse ainda que o Brasil não pode aceitar o socialismo, afirmando que a candidata Dilma Rousseff é inteligente, mas tem uma filosofia que ele não aceita. Roriz lembra, inclusive, que se filiou ao PT logo depois da sua fundação, mas resolveu sair do partido porque, na segunda reunião de que ele participou, o tema a ser debatido era como raptar um avião.
[Ao se sentar à cabeceira da mesa, em sua casa, no Park Way, Joaquim Roriz conta que aquela área era uma fazenda de seu pai] - Isso aqui era uma campina, que tinha muita ema. O meu pai era um homem ruralista, fazendeiro; e eu, um estudante. Nas férias, eu vinha para esta região. Ou seja, nós estamos em uma terra que era da minha família, terra do meu pai. Ou seja, Taguatinga era terra dele. Já o Plano Piloto era terra do meu sogro, e o Gama era da minha tia. Isso me envolve muito com Brasília...]
Walter Gomes - O senhor foi governador pelo voto indireto, na época do José Sarney, foi nomeado em uma época em que não havia eleições. Eleito depois para ocupar o cargo por voto popular. Agora, quer voltar pela quinta vez. Por quê?
- Primeiro, porque acho que Brasília é a cidade mais importante do Brasil, porque é a capital da República, não de estado. E este país é uma nação emergente, que vai matar a fome do mundo. Brasília está exatamente localizada na região onde existe a maior reserva agricultável do planeta. Aqui é o futuro. Quando me perguntam: você já foi governador? E por quê? Por que se aqui é a cidade mais politizada do país? Aqui existem homens preparados, públicos, intelectualmente competentes... Por que um homem nascido no interior se torna quatro vezes governador da capital mais importante deste país? Só tenho uma explicação: esta é a minha filosofia de vida. Tenho o desígnio de Deus, nada mais! Não é superioridade, não é competência, não sou superior a ninguém. Sou um homem que tem fé, que acredita em Deus. Por essa razão, eu posso ser governador.
Walter Gomes - Mas por que pela quinta vez? Existe algum motivo especial?
- Você pergunta novamente: por que pela quinta vez? Quando conheci Brasília, eu era garoto e tocava gado, solto nas campinas verdes, cobertas de buritis, por onde ainda passava o rebanho, que vinha de várias regiões para o DF. Eu acompanhava os empregados do meu pai, vivia e dormia em um barraco, coberto por palha de buriti. Era frio. Acendíamos fogo no meio do barraco, para dormir. Essa era a Brasília que eu conheci. Quando você pergunta “por que” e “para que”, depois de ser governador do DF por 14 anos, a gente conhece e aprende.
Walter Gomes - E o que o senhor aprendeu?
- Aprendi como o povo pensa! Acompanhei os conflitos da cidade. Aqui existem conflitos de toda ordem, intelectuais, de origem, de costumes, porque aqui existe uma nova civilização. Como aqui não existiam as tradições que os outros estados têm, porque são culturas diferentes, aqui se estabeleceu uma nova cultura e, em consequência, também novos conflitos. A cidade ainda está em formação, e eu tenho o compromisso, assumido comigo mesmo, de modernizá-la. Recordo-me como eram os campos do cerrado, as campinas de Brasília... Tudo me causa uma saudade muito grande. Quando passo pelos palácios, pela Praça dos Três Poderes, vejo toda a maravilha disso tudo. A cada dia, mais empolgado eu fico pela cidade. Eu me sinto bem aqui, com uma paz interior muito grande.
Antônio Fábio - Os candidatos sempre realizam as suas campanhas e prometem dar diagnósticos e atuar a seguir. O senhor, que já governou Brasília várias vezes, ultimamente se manteve como um espectador privilegiado. O senhor já tem um diagnóstico pronto da cidade para governar?
- Vejam vocês: eu acredito em Deus. Cada um tem o seu plano, permitido e criado por Ele. Fui governador, cumpri uma missão. Era um desígnio divino, e eu achava que meu propósito tinha terminado. Mas, diante do que está acontecendo em Brasília, a gente se sente envergonhado... [Roriz se refere ao escândalo de corrupção no governo Arruda, descoberto pela Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal]. Quando vejo tanta coisa assim acontecendo, fico imaginando: será que sou culpado por isso? Será que fui buscar auxiliares que eu não conhecia?
Walter Gomes - Ou seja: o senhor tem o sentimento de ter beneficiado pessoas erradas?
- Não temos condição de conhecer todas as famílias da cidade. Nós sabemos das atuais, mas quem era o pai dele, quem era o avô, onde nasceu? Isso eu não sabia. Eu decidia a escolha das pessoas pelos currículos, muitas vezes. Agora, por exemplo, saí de férias por uma semana, com minha família, e me veio uma pessoa daqui de Brasília e se disse humilhada [quando revelou às pessoas de fora que era daqui]. Será que Brasília foi feita para isso? Uma cidade sonhada por Dom Bosco, realizada pelo maior estadista deste país, que foi JK... Será que o nosso sonho parou por aqui?! Será que os jovens, nossos filhos e netos, acham que isso é importante, será necessário? Será que participar de negócios errados está certo? Fico imaginando: Deus, acho que sou culpado. Quem eu fui buscar para auxiliar? Não sabia, não conhecia a origem deles, agora não se pode errar mais, porque Brasília deve ser um modelo para o resto do país. Eu não estou pedindo voto, não estou na rua, estou recolhido, mas as pesquisas demonstram que estou bem na frente, contando com a preferência dos brasilienses. Por quê?
Walter Gomes - Qual é a sua resposta para essa pergunta?
- O povo de Brasília está buscando experiência moderna. É intolerável que a cidade hoje tenha problemas com transporte público e congestionamento. As pessoas têm que trabalhar praticamente em casa para evitar isso. Fico aqui, na porta da minha casa, e vejo passando 20, 30, 40 carretas... Para onde vai isso? Cadê a modernidade? Chama-se internet. Eu estou precisando de 30 funcionários agora. Onde vou encontrá-los? Eles vão se deslocar para cá, para um escritório? Não. Terão que trabalhar em casa. Mas onde está a internet? Então, temos que pensar em um futuro. Não importa se Joaquim Roriz, de origem ruralista, construiu os viadutos desta cidade, o metrô, a terceira ponte no Lago Paranoá, construiu nove cidades para erradicar favelas. Isso é coisa do passado, dos 50 anos da cidade. E os próximos 50 anos, como serão? Como evitar o caos no trânsito, que aumenta cada vez mais com o crescimento da frota? Onde abrir espaço para tantos carros? Vai caber? Vai haver lugar para estacionar?
Antônio Fábio - Brasília, hoje, é uma cidade lotada. O senhor proveu o acesso das camadas antes pobres a coisas que elas não tinham, e elas agora adquiriram moto e carro, e isso tem crescido de forma exponencial. Não dá para empilhar estradas, avenidas e ruas. Qual é a proposta que o senhor tem para o futuro de Brasília com relação ao trânsito, ao transporte e aos estacionamentos?
- Isso é inevitável do meu ponto de vista. O transporte público de primeira qualidade é fundamental. Nós criamos, na época, o chamado transporte alternativo. Ele era uma opção, mas lamentavelmente não se organizou. Quando se fala que a cidade encheu, é lógico que isso aconteceu e vai continuar em ritmo crescente, porque Brasília tem o maior índice de imigração do país. Por quê? Sou capaz de afirmar que todos os senhores não nasceram em Brasília. Talvez, com exceção de mim, que nasci na região. Eu pergunto: por que vocês vieram para cá? Em busca de melhoria de qualidade de vida! Vocês tiveram esperança e aqui conquistaram o êxito profissional. E isso também acontece com a população, que hoje continua com essa mesma esperança, ao vir para Brasília. Aqui é o futuro! Como nós vamos fechar a cidade, se as pessoas vêm em busca de emprego, de sobrevivência? Elas chegam aqui e encontram hospitais e escolas boas. Vêm para fazer um tratamento ou conseguir um emprego, sem a família, mas à medida que elas chegam e acham esse apoio, logo buscam suas famílias. Quando a família inteira da pessoa chega, todos ficam sabendo que a pessoa melhorou de vida em Brasília.
Antônio Fábio - Mas como gerar mais empregos?
- Aí está o futuro! Onde estão os estacionamentos para essa frota de carros que aumenta cada vez mais na cidade? Vamos ter que fazer uma cidade subterrânea?
Walter Gomes - Parece que não há outra saída, pelo menos para estacionar...
- E lá dentro da cidade tem que haver circular para o metrô. Vou lutar por isso! E quanto ao aeroporto, que já é internacional? Estamos no centro do país, é aqui que se deve distribuir. Cadê o aeroporto internacional de cargas? Brasília tem que pensar nisso, em coisas grandes. Vamos superar, pensar em alternativas... Não devemos nos preocupar em pintar meios-fios, vamos pensar no aeroporto internacional, na cidade subterrânea, também na cidade da saúde, tudo isso está dentro da minha cabeça.
Antônio Fábio - O Brasil abrigará, em 2014 e em 2016, os dois maiores eventos esportivos do mundo. E, se Brasília se preparar, se capacitar, se estruturar adequadamente, ela pode se tornar o grande cartão postal desse momento do Brasil para o mundo. O senhor tem em mente a estruturação de um projeto maior sobre esse tema? Inclusive levando as escolas à preparação de jogos, em um projeto esperança, para que os alunos pudessem ser competidores nas Olimpíadas?
- Tenho pensado muito nisso. Acho que é uma grande oportunidade que poderemos ter com a realização desses dois grandes eventos de reputação internacional aqui. Não há como não fazer uma parceria com o governo federal para realizar essas grandes obras. Vejo que é uma chance ímpar para Brasília se consolidar definitivamente. Não poderão faltar recursos, porque o que está em jogo é o nome do Brasil, país que é o mais importante do planeta hoje. Embora seja uma ótima oportunidade, temos que pensar também no pós-evento, e isso pode ser um atrativo, como foi também o início da construção de Brasília. Não podemos fazer coisas pequenas. É o mesmo quando pensamos em como resolver o problema de energia e de água: temos que pensar alto. Qual é a cidade que se desenvolve sem energia elétrica e sem água potável? Não é um problema de preocupação, mas, há alguns anos, era...
Walter Gomes - Temos até que pensar para mais tarde.
- Hoje temos Furnas, e todas as estações estão interligadas. Hoje não é problema. Se faltar energia em um ponto, irá faltar no Brasil inteiro. Mas e a água? Existe maneira de interligar água entre os estados brasileiros? Não. Por isso é que pensamos em construir uma reserva chamada Corumbá IV. Parece até que a escondem, que não dão a importância que ela tem. Ela é estratégica! Para se ter a noção da grandeza dela, o DF produz 14 metros cúbicos de água por segundo, é o que nasce, o que brota da cidade. E nós estamos gastando 13,5. Daqui a pouco tempo, nós não teremos água potável para atender à demanda. E eu pergunto: Corumbá IV pode atender a uma população de 30 milhões de habitantes? Claro! Nós temos reserva de água para 100 anos.
Walter Gomes - O senhor está absolutamente tranquilo de que não tem pendências com a Justiça Eleitoral?
- Estou. Não espero problemas. Estou muito otimista.
Walter Gomes - O senhor tem planos alternativos?
- Não, não tenho plano B, só A. Acredito na Justiça do meu país. O STF não faz julgamento político, só julgamento técnico e jurídico. O único crime que eu tenho é que renunciei ao mandato de senador, mas renunciei também ao foro privilegiado. Sou cidadão comum, por que não me processam? Por que não me acusam e me mostram qual é o meu crime? Eu renunciei porque não me sentia adequado para ser senador da República. Não tolerava mais os discursos intermináveis e personalistas.
Walter Gomes - Quer dizer que o senhor não tem vocação para o parlamento?
- Não tenho vocação! Dei uma desculpa qualquer: “está na hora de eu ir embora”, e fui. Mas eu renunciei a tudo: carro e motorista à minha porta, foro privilegiado, não sei quantos servidores à disposição, telefone à vontade, tudo à mão.
Walter Gomes - Mas existem aqueles que estão convictos de que o senhor temeu ser cassado, para que não perdesse o direito de ser candidato.
- Prevalece essa versão na cidade. Mas estou tão tranquilo, porque houve apenas um entendimento meu com um empresário, por telefone. [Roriz se refere à interceptação de ligações suas feitas para Tarcísio Franklin de Moura, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), para uma suposta partilha de R$ 2,2 milhões, em encontro que teria sido realizado no escritório de Nenê Constantino, presidente da empresa de aviação Gol]. Mas falo ao telefone até hoje, converso, falo besteira, não tenho nada a esconder. Você tinha um dinheiro para me emprestar? Eu não sei de você, mas eu já tomei dinheiro emprestado, e daí? Mas eu pago. Como eu tinha adversários aqui, gravaram essas conversas para uso meramente político.
Walter Gomes - Caso o senhor seja eleito, terá de lidar com a Câmara Legislativa, claro. Como o senhor vê o escândalo do governo Arruda e dos distritais envolvidos? Existem pessoas que afirmam, por exemplo, “sou amigo do Roriz e sei que a devassa desse esquema foi uma campanha dele para se vingar de Arruda e Paulo Octávio”... Como o senhor interpreta isso?
- Sei que o incidente político que aconteceu na cidade foi importante, porque despertou a sociedade.
Walter Gomes - Na sua opinião, qual é o reflexo disso na sociedade?
- Foi positivo, porque hoje estou vendo a minha campanha, que é modesta, extremamente singela. No passado, a pressão que sofríamos era tão grande que só seria eleito quem tivesse mais recursos. Hoje, quando falam comigo, é um assunto que eu não discuto mais: “precisa me ajudar para me eleger deputado”. Comigo bate em porta errada, estou falando isso a todos os candidatos, porque serviu de exemplo para o país. Lamento falar que foi preso um governador, não gostaria que isso tivesse acontecido, mas foi preso! Será que outros não estão preocupados com isso? Será que não serviu de exemplo para o país?
Walter Gomes - Na verdade, as pessoas não esperavam que isso acontecesse.
- Vejam o resultado! Eu não tenho nada de pessoal contra os envolvidos. Acho que o ex-governador foi vítima de um processo, que deu no que deu. Mas acho que a cidade, hoje, é recuperável. Temos que ver Brasília por outro ângulo. Temos que ser otimistas, mas, sobretudo, empreendedores!
Walter Gomes - O senhor também tem consciência de que foi o criador do governador que renunciou depois de preso?
- Tenho. Eu sou.
Antônio Fábio - E o Tadeu Filip-pelli, que é vice na outra chapa? O senhor também acha que foi o criador dele?
- Acho. Eu não sabia, o que posso fazer? Sou culpado pela minha contribuição, mas quem sabe eu recupero isso? Preciso escolher homens de bem para o meu governo. Tenho de fazer uma composição de homens de responsabilidade. Eu penso é nisso.
Walter Gomes - Sempre achei que, após a saída do Arruda, essa grande manobra para eleger o Rogério Rosso foi uma estratégia sua. Estou certo?
- Deixa eu dar um exemplo para você me entender. Nesta mesa existem pessoas que têm várias atividades, mas eu sou de origem ruralista e fazendeiro. Mas não nasci propriamente para isso. Outro dia, recebi na minha fazenda um embaixador, que tinha interesse em conhecer a minha fazenda Palma. Ele foi, levou assessoria, filmadora, queria conhecer o que nós conseguimos fazer ao longo de 40 anos. Lá, nós temos a fazenda-sede, o chamado Retiro. São várias fazendinhas agrupadas que formam o todo. Em cada propriedade dessas, que a sede circula, eu crio um tipo de gado. Uma tem o gado holandês, outra tem o Nelore, o Giro e outras raças. São várias, e eu gosto de todas. Mas como ele ficaria algumas horas para conhecer tudo, levei o meu veterinário-chefe e pedi que o acompanhasse e lhe desse todas as explicações. Eu fiquei aguardando-o na minha casa. Depois de percorrer a fazenda, o embaixador perguntou ao meu veterinário-chefe: “Escuta, do que o Roriz gosta mais? É do Nelore, do Giro?”. O veterinário, inadvertidamente, respondeu: “Acho que ele gosta de tudo, mas o que ele mais gosta mesmo é de política!”. Olha, durante o tempo em que estou lá na fazenda descansando, minha cabeça só pensa em política, as 24 horas do dia. A vida inteira eu dormi muito, tomo remédio para dormir, para ver se me tranquilizo. Infelizmente, o que eu posso fazer? Aí é que eu falo, designo! Eu me preocupo com Brasília, com os pobres. Chego à minha casa e vejo que todo dia sobra comida na minha mesa. Então, eu penso: “será que não tem alguém em busca da sobra?”. Por que eu moro em uma casa de 10 mil metros quadrados? Por que não posso dar 100 metros para cada um? Eu não quero dar, quero ter o meu, mas por que os outros também não podem ter? Eu penso assim, se eu estou errado, me desculpem.
Walter Gomes - Indiretamente, o senhor respondeu à minha pergunta.
Antônio Fábio - O senhor acha que o processo de renovação da Câmara Legislativa está melhorando ou piorando?
- Acho que a sociedade brasiliense está muito mais atenta aos acontecimentos e aspira por uma renovação. Irá prevalecer o que vai se mostrar: os projetos e as soluções. Os grandes instrumentos para a resolução desse problema serão dois: primeiro, a internet; segundo, a televisão, que irão influenciar a escolha. Obrigatoriamente irá ocorrer uma renovação da Câmara Legislativa. Este é o momento. Mas não importa que eu esteja velho. Sim, sou um idoso hoje. Mesmo assim, rezo todas as noites, agradecendo por ter envelhecido. Senão, teria que ter morrido novo, e poder envelhecer é uma dádiva. Mas, mesmo com uma certa idade já, dia e noite eu só penso na modernidade, no que a vida dos outros pode melhorar. A minha vida está resolvida. Não tenho filhos funcionários públicos, mas tenho três filhas políticas e outra cuidando de atividades pessoais, mas a minha vida está resolvida. Eu rezo todas as noites para Nossa Senhora Aparecida e pergunto a ela: “será que eu não posso dar algo mais para minha cidade nesta minha idade?”. É assim que eu penso e faço, não é apenas promessa política. Oro todas as noites para Nossa Senhora Aparecida e digo a ela: “se não for para eu ser um bom governante, para ser um homem solidário, me tira, então, do páreo”. Peço a ela que, se eu não tiver condições de governar Brasília, que eu seja derrotado nas eleições. Não estou lutando pelo poder, estou lutando para dar ao povo aquilo que eu conseguir dar, ao longo do tempo.
Walter Gomes - O senhor já esteve no PT de Goiás. Então, conhece o partido. Por que hoje existe uma rixa tamanha do PT com relação ao senhor? Talvez a recíproca seja verdadeira?
- São coisas que a gente até tem dificuldade de descrever. Penso que, ideologicamente, sempre fui firme nas minhas convicções. Na época em que fui ministro da Agricultura, aconteceu algo que vale a pena ficar registrado. Eu fiquei poucos dias no Ministério, porque foi publicada uma notícia que dizia que Lula estava se preparando para transferir seu domicílio eleitoral para Brasília. Mostrei a notícia, então, para o presidente Fernando Collor de Mello. Eu disse a ele: “Olha quem está se transferindo para Brasília”. Mas como eu também não estava muito satisfeito como ministro e minha convivência com o Collor era difícil, acabei saindo do Ministério da Agricultura. Depois que eu soube da notícia, mandei preparar rápido uma pesquisa: se Lula fosse candidato a governador de Brasília, como seria a votação? Lula ganharia a eleição. Mas quando fizeram a projeção colocando meu nome na disputa contra ele, o resultado é que eu ganharia a eleição.
Walter Gomes - Isso é notícia nova, não é?
- Sim, sem dúvida! Eu mostrei a pesquisa ao Collor e falei: “se o senhor achar que eu devo continuar sendo ministro da Agricultura, eu vou lhe ajudar; mas se o senhor achar que não é importante”, mostrando a ele pesquisa e a notícia das colunas, “o senhor me diz. Porque se o senhor achar que eu devo deixar o Ministério, vou ter que criar um clima para isso”. Ele olhou, olhou, pensou para responder e, no final, disse: “Pode criar o clima”. Isso eu estou dizendo em primeiríssima mão para vocês!
Antônio Fábio - Governador, na sua gestão foram desenvolvidos vários programas econômicos, inclusive vitoriosos. Hoje nós sabemos das limitações que existem na legislação brasileira para qualquer tipo de incentivo. Talvez o senhor tenha que refletir melhor sobre isso, porque uma decisão de reduzir tributos não é simples, mas queria deixar anotado que é o setor que mais emprega e cresce no DF. Talvez houvesse esse caminho favorável para gerar emprego e renda no DF. Qual é a posição do senhor sobre isso?
- Primeiro, os encargos de governo são crescentes, são iminentes, porque isso está em função do aumento da população. Não se pode pensar em reduzir tributos, mas evitar sonegação. E, naturalmente, isentar os fundamentais, esse é um ponto de vista. O governo tem que se preocupar com os pobres, não com os ricos. Os ricos têm seus próprios problemas. Você não pode atrapalhar o rico. Deixe que ele cresça e gere empregos para o pobre.
Antônio Fábio - Como se resolve esse problema de não perturbar os bem-sucedidos?
- Tentando a arrecadação na fonte, começa por aí. Assim se acaba com a deslealdade dos mercadistas, dos atravessadores... Em vez de diminuir, temos de aumentar a cadeia de contribuintes, o que acaba com os sonegadores.
Antônio Fábio - Mas e o problema dos alimentos da cesta básica: arroz, feijão?
- Não vão ter imposto, têm que ser isentos. É alimento, é comida, é sobrevivência. Eu penso assim, e temos que ter a coragem de decidir isso, discutindo, chamando os empresários. Temos de aumentar a arrecadação, e não aumentar os impostos. Mas, para isso, precisamos buscar a solução da fonte. Por exemplo, hoje ninguém sonega imposto de automóvel, porque o imposto é pago na fonte, é a fábrica que paga. Porque aí não há sonegação e não há disputa de mercado, uma vez que um paga imposto, e o outro, não. Muitas vezes, ele vende a mercadoria com preço abaixo do imposto. Como resolver isso? Da forma mais inteligente, mais moderna. Não existe sonegação nos Estados Unidos...
Walter Gomes - Vale imposto único?
- Vale. Você vai a qualquer lugar dos Estados Unidos e está lá o imposto, e nada sem nota. Essas modernidades devem servir de exemplo.
Walter Gomes - O senhor teme um novo governo do PT? Por exemplo, se a ex-ministra Dilma vencer?
- Temo. Acho que ela é uma mulher muito inteligente, mas tem uma filosofia da qual eu discordo. Queria contar a historia do porquê eu fui para o PT. Eu terminaria afirmando o seguinte: primeiro, apesar de respeitá-la muito, acho que a ministra Dilma tem compromisso com o socialismo. Eles têm vocação cubana, venezuelana, que nós não podemos ter. O Brasil é um líder da América Latina e vai ser o líder do planeta. Não podemos usar o socialismo, temos que ser democratas. Não concordo com o sistema que eles defendem, o socialismo. O PT era o Partido dos Trabalhares, e foi para lá que eu fui. Mas na segunda reunião da qual eu participei eles discutiram a questão de como sequestrar um avião!
Walter Gomes - Achei que o senhor tivesse ido para o PT por uma questão política local. Que o senhor tivesse tido um problema e pensado: “eu vou para o PT e vamos ver o que vai acontecer”.
- Não, não foi! Estavam nessa mesma reunião empresários progressistas... Existe uma coisa que é importante falar. Quando se fala em turista, sabe-se que é a pessoa que vem para gastar dinheiro. Agora, acontece o seguinte: como fazer um turismo melhor para Brasília? Temos que estender isso para o Entorno! Existem grutas no DF que têm rios subterrâneos e ninguém sabe disso.
Antônio Fábio - Quando o senhor voa de helicóptero sobre Brasília, hoje, vê Samambaia, Águas Claras... Qual é o seu sentimento?
- Fico impressionado. Quando eu morava em Águas Claras, como governador, num determinado dia, havia um barulho danado, estava passando o metrô, havia muita poeira, e minha mulher disse: “não tem um jeito de fazer isso mais rápido?”. Então, eu disse para ela fazer um passeio de helicóptero. “Assim, você vê as máquinas trabalhando”. Ela aceitou o voo. Eu não fui. Quando ela chegou, olhou para mim e disse: “esse homem é doido!”. O doido era eu!
Revista Brasília em Dia
Tocando a campanha
Por: Walter Gomes e Antônio Fábio
Fotos de Hermínio Oliveira
“Aprendi como o povo pensa!”
Governador de Brasília por quatro vezes, uma delas por nomeação, o goiano (de Luziânia) Joaquim Roriz está em campanha para voltar a comandar o Palácio do Buriti pela quinta vez. No domingo passado, dia 25, ele recebeu, em sua mansão no Park Way, os representantes de Brasília Em Dia (Walter Gomes, Antônio Fábio e Hermínio Oliveira) para uma longa entrevista, inicialmente agendada para apenas uma hora, mas que se estendeu por até três horas. O que os entrevistadores viram foi um Roriz aberto, franco, disposto a responder a qualquer pergunta. De fato, ele surpreendeu a todos pela prontidão em falar de tudo. Antes lacônico e cauteloso, ele subitamente se mostrou outro no decorrer da entrevista, chegando a ponto de fazer confissões importantes. Uma delas, inédita até então, foi a revelação de como o seu destino se transformou a partir de uma notícia sobre Luiz Inácio Lula da Silva, que, por sua vez, também viu seu próprio futuro político redirecionado.
Depois de ser governador nomeado pelo então presidente José Sarney, Roriz integrou o governo de Fernando Collor como ministro da Agricultura. Certo dia, ele leu nos jornais que Lula estava transferindo seu domicílio eleitoral para Brasília, a fim de se candidatar ao GDF. Roriz levou a informação para Collor, que o autorizou a deixar o ministério para cuidar da sua campanha para governador, porque uma pesquisa encomendada por Roriz indicava que ele seria o único adversário capaz de derrotar Lula no DF. Lula, diante da possibilidade de entrar numa disputa para governador do DF concorrendo com Joaquim Roriz, acabou desistindo. Ou seja, se fosse candidato, seria derrotado, e sua renúncia abriu caminho para Joaquim Roriz conquistar nas urnas mais três passagens pelo Palácio do Buriti, deixando para o petista a opção de concorrer ao Palácio do Planalto, que ele enfim conquistou em 2002.
Ainda na entrevista, Roriz afirmou que o PT tem vocação cubana e venezuelana. Disse ainda que o Brasil não pode aceitar o socialismo, afirmando que a candidata Dilma Rousseff é inteligente, mas tem uma filosofia que ele não aceita. Roriz lembra, inclusive, que se filiou ao PT logo depois da sua fundação, mas resolveu sair do partido porque, na segunda reunião de que ele participou, o tema a ser debatido era como raptar um avião.
[Ao se sentar à cabeceira da mesa, em sua casa, no Park Way, Joaquim Roriz conta que aquela área era uma fazenda de seu pai] - Isso aqui era uma campina, que tinha muita ema. O meu pai era um homem ruralista, fazendeiro; e eu, um estudante. Nas férias, eu vinha para esta região. Ou seja, nós estamos em uma terra que era da minha família, terra do meu pai. Ou seja, Taguatinga era terra dele. Já o Plano Piloto era terra do meu sogro, e o Gama era da minha tia. Isso me envolve muito com Brasília...]
Walter Gomes - O senhor foi governador pelo voto indireto, na época do José Sarney, foi nomeado em uma época em que não havia eleições. Eleito depois para ocupar o cargo por voto popular. Agora, quer voltar pela quinta vez. Por quê?
- Primeiro, porque acho que Brasília é a cidade mais importante do Brasil, porque é a capital da República, não de estado. E este país é uma nação emergente, que vai matar a fome do mundo. Brasília está exatamente localizada na região onde existe a maior reserva agricultável do planeta. Aqui é o futuro. Quando me perguntam: você já foi governador? E por quê? Por que se aqui é a cidade mais politizada do país? Aqui existem homens preparados, públicos, intelectualmente competentes... Por que um homem nascido no interior se torna quatro vezes governador da capital mais importante deste país? Só tenho uma explicação: esta é a minha filosofia de vida. Tenho o desígnio de Deus, nada mais! Não é superioridade, não é competência, não sou superior a ninguém. Sou um homem que tem fé, que acredita em Deus. Por essa razão, eu posso ser governador.
Walter Gomes - Mas por que pela quinta vez? Existe algum motivo especial?
- Você pergunta novamente: por que pela quinta vez? Quando conheci Brasília, eu era garoto e tocava gado, solto nas campinas verdes, cobertas de buritis, por onde ainda passava o rebanho, que vinha de várias regiões para o DF. Eu acompanhava os empregados do meu pai, vivia e dormia em um barraco, coberto por palha de buriti. Era frio. Acendíamos fogo no meio do barraco, para dormir. Essa era a Brasília que eu conheci. Quando você pergunta “por que” e “para que”, depois de ser governador do DF por 14 anos, a gente conhece e aprende.
Walter Gomes - E o que o senhor aprendeu?
- Aprendi como o povo pensa! Acompanhei os conflitos da cidade. Aqui existem conflitos de toda ordem, intelectuais, de origem, de costumes, porque aqui existe uma nova civilização. Como aqui não existiam as tradições que os outros estados têm, porque são culturas diferentes, aqui se estabeleceu uma nova cultura e, em consequência, também novos conflitos. A cidade ainda está em formação, e eu tenho o compromisso, assumido comigo mesmo, de modernizá-la. Recordo-me como eram os campos do cerrado, as campinas de Brasília... Tudo me causa uma saudade muito grande. Quando passo pelos palácios, pela Praça dos Três Poderes, vejo toda a maravilha disso tudo. A cada dia, mais empolgado eu fico pela cidade. Eu me sinto bem aqui, com uma paz interior muito grande.
Antônio Fábio - Os candidatos sempre realizam as suas campanhas e prometem dar diagnósticos e atuar a seguir. O senhor, que já governou Brasília várias vezes, ultimamente se manteve como um espectador privilegiado. O senhor já tem um diagnóstico pronto da cidade para governar?
- Vejam vocês: eu acredito em Deus. Cada um tem o seu plano, permitido e criado por Ele. Fui governador, cumpri uma missão. Era um desígnio divino, e eu achava que meu propósito tinha terminado. Mas, diante do que está acontecendo em Brasília, a gente se sente envergonhado... [Roriz se refere ao escândalo de corrupção no governo Arruda, descoberto pela Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal]. Quando vejo tanta coisa assim acontecendo, fico imaginando: será que sou culpado por isso? Será que fui buscar auxiliares que eu não conhecia?
Walter Gomes - Ou seja: o senhor tem o sentimento de ter beneficiado pessoas erradas?
- Não temos condição de conhecer todas as famílias da cidade. Nós sabemos das atuais, mas quem era o pai dele, quem era o avô, onde nasceu? Isso eu não sabia. Eu decidia a escolha das pessoas pelos currículos, muitas vezes. Agora, por exemplo, saí de férias por uma semana, com minha família, e me veio uma pessoa daqui de Brasília e se disse humilhada [quando revelou às pessoas de fora que era daqui]. Será que Brasília foi feita para isso? Uma cidade sonhada por Dom Bosco, realizada pelo maior estadista deste país, que foi JK... Será que o nosso sonho parou por aqui?! Será que os jovens, nossos filhos e netos, acham que isso é importante, será necessário? Será que participar de negócios errados está certo? Fico imaginando: Deus, acho que sou culpado. Quem eu fui buscar para auxiliar? Não sabia, não conhecia a origem deles, agora não se pode errar mais, porque Brasília deve ser um modelo para o resto do país. Eu não estou pedindo voto, não estou na rua, estou recolhido, mas as pesquisas demonstram que estou bem na frente, contando com a preferência dos brasilienses. Por quê?
Walter Gomes - Qual é a sua resposta para essa pergunta?
- O povo de Brasília está buscando experiência moderna. É intolerável que a cidade hoje tenha problemas com transporte público e congestionamento. As pessoas têm que trabalhar praticamente em casa para evitar isso. Fico aqui, na porta da minha casa, e vejo passando 20, 30, 40 carretas... Para onde vai isso? Cadê a modernidade? Chama-se internet. Eu estou precisando de 30 funcionários agora. Onde vou encontrá-los? Eles vão se deslocar para cá, para um escritório? Não. Terão que trabalhar em casa. Mas onde está a internet? Então, temos que pensar em um futuro. Não importa se Joaquim Roriz, de origem ruralista, construiu os viadutos desta cidade, o metrô, a terceira ponte no Lago Paranoá, construiu nove cidades para erradicar favelas. Isso é coisa do passado, dos 50 anos da cidade. E os próximos 50 anos, como serão? Como evitar o caos no trânsito, que aumenta cada vez mais com o crescimento da frota? Onde abrir espaço para tantos carros? Vai caber? Vai haver lugar para estacionar?
Antônio Fábio - Brasília, hoje, é uma cidade lotada. O senhor proveu o acesso das camadas antes pobres a coisas que elas não tinham, e elas agora adquiriram moto e carro, e isso tem crescido de forma exponencial. Não dá para empilhar estradas, avenidas e ruas. Qual é a proposta que o senhor tem para o futuro de Brasília com relação ao trânsito, ao transporte e aos estacionamentos?
- Isso é inevitável do meu ponto de vista. O transporte público de primeira qualidade é fundamental. Nós criamos, na época, o chamado transporte alternativo. Ele era uma opção, mas lamentavelmente não se organizou. Quando se fala que a cidade encheu, é lógico que isso aconteceu e vai continuar em ritmo crescente, porque Brasília tem o maior índice de imigração do país. Por quê? Sou capaz de afirmar que todos os senhores não nasceram em Brasília. Talvez, com exceção de mim, que nasci na região. Eu pergunto: por que vocês vieram para cá? Em busca de melhoria de qualidade de vida! Vocês tiveram esperança e aqui conquistaram o êxito profissional. E isso também acontece com a população, que hoje continua com essa mesma esperança, ao vir para Brasília. Aqui é o futuro! Como nós vamos fechar a cidade, se as pessoas vêm em busca de emprego, de sobrevivência? Elas chegam aqui e encontram hospitais e escolas boas. Vêm para fazer um tratamento ou conseguir um emprego, sem a família, mas à medida que elas chegam e acham esse apoio, logo buscam suas famílias. Quando a família inteira da pessoa chega, todos ficam sabendo que a pessoa melhorou de vida em Brasília.
Antônio Fábio - Mas como gerar mais empregos?
- Aí está o futuro! Onde estão os estacionamentos para essa frota de carros que aumenta cada vez mais na cidade? Vamos ter que fazer uma cidade subterrânea?
Walter Gomes - Parece que não há outra saída, pelo menos para estacionar...
- E lá dentro da cidade tem que haver circular para o metrô. Vou lutar por isso! E quanto ao aeroporto, que já é internacional? Estamos no centro do país, é aqui que se deve distribuir. Cadê o aeroporto internacional de cargas? Brasília tem que pensar nisso, em coisas grandes. Vamos superar, pensar em alternativas... Não devemos nos preocupar em pintar meios-fios, vamos pensar no aeroporto internacional, na cidade subterrânea, também na cidade da saúde, tudo isso está dentro da minha cabeça.
Antônio Fábio - O Brasil abrigará, em 2014 e em 2016, os dois maiores eventos esportivos do mundo. E, se Brasília se preparar, se capacitar, se estruturar adequadamente, ela pode se tornar o grande cartão postal desse momento do Brasil para o mundo. O senhor tem em mente a estruturação de um projeto maior sobre esse tema? Inclusive levando as escolas à preparação de jogos, em um projeto esperança, para que os alunos pudessem ser competidores nas Olimpíadas?
- Tenho pensado muito nisso. Acho que é uma grande oportunidade que poderemos ter com a realização desses dois grandes eventos de reputação internacional aqui. Não há como não fazer uma parceria com o governo federal para realizar essas grandes obras. Vejo que é uma chance ímpar para Brasília se consolidar definitivamente. Não poderão faltar recursos, porque o que está em jogo é o nome do Brasil, país que é o mais importante do planeta hoje. Embora seja uma ótima oportunidade, temos que pensar também no pós-evento, e isso pode ser um atrativo, como foi também o início da construção de Brasília. Não podemos fazer coisas pequenas. É o mesmo quando pensamos em como resolver o problema de energia e de água: temos que pensar alto. Qual é a cidade que se desenvolve sem energia elétrica e sem água potável? Não é um problema de preocupação, mas, há alguns anos, era...
Walter Gomes - Temos até que pensar para mais tarde.
- Hoje temos Furnas, e todas as estações estão interligadas. Hoje não é problema. Se faltar energia em um ponto, irá faltar no Brasil inteiro. Mas e a água? Existe maneira de interligar água entre os estados brasileiros? Não. Por isso é que pensamos em construir uma reserva chamada Corumbá IV. Parece até que a escondem, que não dão a importância que ela tem. Ela é estratégica! Para se ter a noção da grandeza dela, o DF produz 14 metros cúbicos de água por segundo, é o que nasce, o que brota da cidade. E nós estamos gastando 13,5. Daqui a pouco tempo, nós não teremos água potável para atender à demanda. E eu pergunto: Corumbá IV pode atender a uma população de 30 milhões de habitantes? Claro! Nós temos reserva de água para 100 anos.
Walter Gomes - O senhor está absolutamente tranquilo de que não tem pendências com a Justiça Eleitoral?
- Estou. Não espero problemas. Estou muito otimista.
Walter Gomes - O senhor tem planos alternativos?
- Não, não tenho plano B, só A. Acredito na Justiça do meu país. O STF não faz julgamento político, só julgamento técnico e jurídico. O único crime que eu tenho é que renunciei ao mandato de senador, mas renunciei também ao foro privilegiado. Sou cidadão comum, por que não me processam? Por que não me acusam e me mostram qual é o meu crime? Eu renunciei porque não me sentia adequado para ser senador da República. Não tolerava mais os discursos intermináveis e personalistas.
Walter Gomes - Quer dizer que o senhor não tem vocação para o parlamento?
- Não tenho vocação! Dei uma desculpa qualquer: “está na hora de eu ir embora”, e fui. Mas eu renunciei a tudo: carro e motorista à minha porta, foro privilegiado, não sei quantos servidores à disposição, telefone à vontade, tudo à mão.
Walter Gomes - Mas existem aqueles que estão convictos de que o senhor temeu ser cassado, para que não perdesse o direito de ser candidato.
- Prevalece essa versão na cidade. Mas estou tão tranquilo, porque houve apenas um entendimento meu com um empresário, por telefone. [Roriz se refere à interceptação de ligações suas feitas para Tarcísio Franklin de Moura, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), para uma suposta partilha de R$ 2,2 milhões, em encontro que teria sido realizado no escritório de Nenê Constantino, presidente da empresa de aviação Gol]. Mas falo ao telefone até hoje, converso, falo besteira, não tenho nada a esconder. Você tinha um dinheiro para me emprestar? Eu não sei de você, mas eu já tomei dinheiro emprestado, e daí? Mas eu pago. Como eu tinha adversários aqui, gravaram essas conversas para uso meramente político.
Walter Gomes - Caso o senhor seja eleito, terá de lidar com a Câmara Legislativa, claro. Como o senhor vê o escândalo do governo Arruda e dos distritais envolvidos? Existem pessoas que afirmam, por exemplo, “sou amigo do Roriz e sei que a devassa desse esquema foi uma campanha dele para se vingar de Arruda e Paulo Octávio”... Como o senhor interpreta isso?
- Sei que o incidente político que aconteceu na cidade foi importante, porque despertou a sociedade.
Walter Gomes - Na sua opinião, qual é o reflexo disso na sociedade?
- Foi positivo, porque hoje estou vendo a minha campanha, que é modesta, extremamente singela. No passado, a pressão que sofríamos era tão grande que só seria eleito quem tivesse mais recursos. Hoje, quando falam comigo, é um assunto que eu não discuto mais: “precisa me ajudar para me eleger deputado”. Comigo bate em porta errada, estou falando isso a todos os candidatos, porque serviu de exemplo para o país. Lamento falar que foi preso um governador, não gostaria que isso tivesse acontecido, mas foi preso! Será que outros não estão preocupados com isso? Será que não serviu de exemplo para o país?
Walter Gomes - Na verdade, as pessoas não esperavam que isso acontecesse.
- Vejam o resultado! Eu não tenho nada de pessoal contra os envolvidos. Acho que o ex-governador foi vítima de um processo, que deu no que deu. Mas acho que a cidade, hoje, é recuperável. Temos que ver Brasília por outro ângulo. Temos que ser otimistas, mas, sobretudo, empreendedores!
Walter Gomes - O senhor também tem consciência de que foi o criador do governador que renunciou depois de preso?
- Tenho. Eu sou.
Antônio Fábio - E o Tadeu Filip-pelli, que é vice na outra chapa? O senhor também acha que foi o criador dele?
- Acho. Eu não sabia, o que posso fazer? Sou culpado pela minha contribuição, mas quem sabe eu recupero isso? Preciso escolher homens de bem para o meu governo. Tenho de fazer uma composição de homens de responsabilidade. Eu penso é nisso.
Walter Gomes - Sempre achei que, após a saída do Arruda, essa grande manobra para eleger o Rogério Rosso foi uma estratégia sua. Estou certo?
- Deixa eu dar um exemplo para você me entender. Nesta mesa existem pessoas que têm várias atividades, mas eu sou de origem ruralista e fazendeiro. Mas não nasci propriamente para isso. Outro dia, recebi na minha fazenda um embaixador, que tinha interesse em conhecer a minha fazenda Palma. Ele foi, levou assessoria, filmadora, queria conhecer o que nós conseguimos fazer ao longo de 40 anos. Lá, nós temos a fazenda-sede, o chamado Retiro. São várias fazendinhas agrupadas que formam o todo. Em cada propriedade dessas, que a sede circula, eu crio um tipo de gado. Uma tem o gado holandês, outra tem o Nelore, o Giro e outras raças. São várias, e eu gosto de todas. Mas como ele ficaria algumas horas para conhecer tudo, levei o meu veterinário-chefe e pedi que o acompanhasse e lhe desse todas as explicações. Eu fiquei aguardando-o na minha casa. Depois de percorrer a fazenda, o embaixador perguntou ao meu veterinário-chefe: “Escuta, do que o Roriz gosta mais? É do Nelore, do Giro?”. O veterinário, inadvertidamente, respondeu: “Acho que ele gosta de tudo, mas o que ele mais gosta mesmo é de política!”. Olha, durante o tempo em que estou lá na fazenda descansando, minha cabeça só pensa em política, as 24 horas do dia. A vida inteira eu dormi muito, tomo remédio para dormir, para ver se me tranquilizo. Infelizmente, o que eu posso fazer? Aí é que eu falo, designo! Eu me preocupo com Brasília, com os pobres. Chego à minha casa e vejo que todo dia sobra comida na minha mesa. Então, eu penso: “será que não tem alguém em busca da sobra?”. Por que eu moro em uma casa de 10 mil metros quadrados? Por que não posso dar 100 metros para cada um? Eu não quero dar, quero ter o meu, mas por que os outros também não podem ter? Eu penso assim, se eu estou errado, me desculpem.
Walter Gomes - Indiretamente, o senhor respondeu à minha pergunta.
Antônio Fábio - O senhor acha que o processo de renovação da Câmara Legislativa está melhorando ou piorando?
- Acho que a sociedade brasiliense está muito mais atenta aos acontecimentos e aspira por uma renovação. Irá prevalecer o que vai se mostrar: os projetos e as soluções. Os grandes instrumentos para a resolução desse problema serão dois: primeiro, a internet; segundo, a televisão, que irão influenciar a escolha. Obrigatoriamente irá ocorrer uma renovação da Câmara Legislativa. Este é o momento. Mas não importa que eu esteja velho. Sim, sou um idoso hoje. Mesmo assim, rezo todas as noites, agradecendo por ter envelhecido. Senão, teria que ter morrido novo, e poder envelhecer é uma dádiva. Mas, mesmo com uma certa idade já, dia e noite eu só penso na modernidade, no que a vida dos outros pode melhorar. A minha vida está resolvida. Não tenho filhos funcionários públicos, mas tenho três filhas políticas e outra cuidando de atividades pessoais, mas a minha vida está resolvida. Eu rezo todas as noites para Nossa Senhora Aparecida e pergunto a ela: “será que eu não posso dar algo mais para minha cidade nesta minha idade?”. É assim que eu penso e faço, não é apenas promessa política. Oro todas as noites para Nossa Senhora Aparecida e digo a ela: “se não for para eu ser um bom governante, para ser um homem solidário, me tira, então, do páreo”. Peço a ela que, se eu não tiver condições de governar Brasília, que eu seja derrotado nas eleições. Não estou lutando pelo poder, estou lutando para dar ao povo aquilo que eu conseguir dar, ao longo do tempo.
Walter Gomes - O senhor já esteve no PT de Goiás. Então, conhece o partido. Por que hoje existe uma rixa tamanha do PT com relação ao senhor? Talvez a recíproca seja verdadeira?
- São coisas que a gente até tem dificuldade de descrever. Penso que, ideologicamente, sempre fui firme nas minhas convicções. Na época em que fui ministro da Agricultura, aconteceu algo que vale a pena ficar registrado. Eu fiquei poucos dias no Ministério, porque foi publicada uma notícia que dizia que Lula estava se preparando para transferir seu domicílio eleitoral para Brasília. Mostrei a notícia, então, para o presidente Fernando Collor de Mello. Eu disse a ele: “Olha quem está se transferindo para Brasília”. Mas como eu também não estava muito satisfeito como ministro e minha convivência com o Collor era difícil, acabei saindo do Ministério da Agricultura. Depois que eu soube da notícia, mandei preparar rápido uma pesquisa: se Lula fosse candidato a governador de Brasília, como seria a votação? Lula ganharia a eleição. Mas quando fizeram a projeção colocando meu nome na disputa contra ele, o resultado é que eu ganharia a eleição.
Walter Gomes - Isso é notícia nova, não é?
- Sim, sem dúvida! Eu mostrei a pesquisa ao Collor e falei: “se o senhor achar que eu devo continuar sendo ministro da Agricultura, eu vou lhe ajudar; mas se o senhor achar que não é importante”, mostrando a ele pesquisa e a notícia das colunas, “o senhor me diz. Porque se o senhor achar que eu devo deixar o Ministério, vou ter que criar um clima para isso”. Ele olhou, olhou, pensou para responder e, no final, disse: “Pode criar o clima”. Isso eu estou dizendo em primeiríssima mão para vocês!
Antônio Fábio - Governador, na sua gestão foram desenvolvidos vários programas econômicos, inclusive vitoriosos. Hoje nós sabemos das limitações que existem na legislação brasileira para qualquer tipo de incentivo. Talvez o senhor tenha que refletir melhor sobre isso, porque uma decisão de reduzir tributos não é simples, mas queria deixar anotado que é o setor que mais emprega e cresce no DF. Talvez houvesse esse caminho favorável para gerar emprego e renda no DF. Qual é a posição do senhor sobre isso?
- Primeiro, os encargos de governo são crescentes, são iminentes, porque isso está em função do aumento da população. Não se pode pensar em reduzir tributos, mas evitar sonegação. E, naturalmente, isentar os fundamentais, esse é um ponto de vista. O governo tem que se preocupar com os pobres, não com os ricos. Os ricos têm seus próprios problemas. Você não pode atrapalhar o rico. Deixe que ele cresça e gere empregos para o pobre.
Antônio Fábio - Como se resolve esse problema de não perturbar os bem-sucedidos?
- Tentando a arrecadação na fonte, começa por aí. Assim se acaba com a deslealdade dos mercadistas, dos atravessadores... Em vez de diminuir, temos de aumentar a cadeia de contribuintes, o que acaba com os sonegadores.
Antônio Fábio - Mas e o problema dos alimentos da cesta básica: arroz, feijão?
- Não vão ter imposto, têm que ser isentos. É alimento, é comida, é sobrevivência. Eu penso assim, e temos que ter a coragem de decidir isso, discutindo, chamando os empresários. Temos de aumentar a arrecadação, e não aumentar os impostos. Mas, para isso, precisamos buscar a solução da fonte. Por exemplo, hoje ninguém sonega imposto de automóvel, porque o imposto é pago na fonte, é a fábrica que paga. Porque aí não há sonegação e não há disputa de mercado, uma vez que um paga imposto, e o outro, não. Muitas vezes, ele vende a mercadoria com preço abaixo do imposto. Como resolver isso? Da forma mais inteligente, mais moderna. Não existe sonegação nos Estados Unidos...
Walter Gomes - Vale imposto único?
- Vale. Você vai a qualquer lugar dos Estados Unidos e está lá o imposto, e nada sem nota. Essas modernidades devem servir de exemplo.
Walter Gomes - O senhor teme um novo governo do PT? Por exemplo, se a ex-ministra Dilma vencer?
- Temo. Acho que ela é uma mulher muito inteligente, mas tem uma filosofia da qual eu discordo. Queria contar a historia do porquê eu fui para o PT. Eu terminaria afirmando o seguinte: primeiro, apesar de respeitá-la muito, acho que a ministra Dilma tem compromisso com o socialismo. Eles têm vocação cubana, venezuelana, que nós não podemos ter. O Brasil é um líder da América Latina e vai ser o líder do planeta. Não podemos usar o socialismo, temos que ser democratas. Não concordo com o sistema que eles defendem, o socialismo. O PT era o Partido dos Trabalhares, e foi para lá que eu fui. Mas na segunda reunião da qual eu participei eles discutiram a questão de como sequestrar um avião!
Walter Gomes - Achei que o senhor tivesse ido para o PT por uma questão política local. Que o senhor tivesse tido um problema e pensado: “eu vou para o PT e vamos ver o que vai acontecer”.
- Não, não foi! Estavam nessa mesma reunião empresários progressistas... Existe uma coisa que é importante falar. Quando se fala em turista, sabe-se que é a pessoa que vem para gastar dinheiro. Agora, acontece o seguinte: como fazer um turismo melhor para Brasília? Temos que estender isso para o Entorno! Existem grutas no DF que têm rios subterrâneos e ninguém sabe disso.
Antônio Fábio - Quando o senhor voa de helicóptero sobre Brasília, hoje, vê Samambaia, Águas Claras... Qual é o seu sentimento?
- Fico impressionado. Quando eu morava em Águas Claras, como governador, num determinado dia, havia um barulho danado, estava passando o metrô, havia muita poeira, e minha mulher disse: “não tem um jeito de fazer isso mais rápido?”. Então, eu disse para ela fazer um passeio de helicóptero. “Assim, você vê as máquinas trabalhando”. Ela aceitou o voo. Eu não fui. Quando ela chegou, olhou para mim e disse: “esse homem é doido!”. O doido era eu!
Revista Brasília em Dia


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